É que não fomos mesmo feitos pra durar. A vida é mesmo um sopro e somos espirros de uma existência que é tão leve quanto folhas voando no vento. Acho que não nasci pra durar. Nas fotos vejo o tempo que deixei passar e vejo como vou morrendo nos anos... vejo o sorriso infantil ser contornado pelas barbas de um homem que não tem pretensões de ser por muito tempo. A pele da infância queimada pelos sóis que se esconderam num horizonte que não envelhece comigo. A arrogância é o que me injeta juventude, ou o contrário. Sinto nos ossos as vibrações do tempo que me leva, que me lava, que me entope com as dúvidas dos amanhãs que não enxergo, dos dias que não quero ver.
E sei que não vai durar...
Sentia saudades de um tempo em que cabia num colo. Tempo em que podia se ajeitar e dormir em paz. Preso numa casca maior, ainda sente-se como algo menor. Teme pelo que venha a ser. Se sente sozinho num mundo onde todo mundo é assim, sozinho também. Despreparado, de olhos fechados pra multidão, não quer olhar pro cinza que o rodeia.
E ela era assim, a menina que ele tinha desenhado em folhas de caderno, pautadas em linhas ciano. Tinha as curvas dos recortes topográficos dos morros baseados em peitos e bundas que ele cansou de riscar. Os cabelos voados escuros como o nanquim que teimava em manchar as folhas de baixo. Menina que ele gostava de florear nos sonhos de jardins proibidos, nos pesadelos de luxuriosos infernos. Exatamente a menina que surgia, sempre que ele podia se divertir sozinho, com obscenidades de segredo, segredos desnecessários.
A brasa acesa no escuro recortado pelo quadrado da janela. Era um samba todo, queimando em fumaça branca contrastada no vermelho, forte, poderoso, que radiava de seus cabelos, de sua boca, daquele falso ódio delirando num sorriso irônico. Acordes, notas. Sopro de palavras mudas, silenciadas numa ignorância mútua. Era uma ópera toda, tocada com ênfase, cansada até o último momento, dedilhada num enlace de amores alcoolizados, paixões gravadas em ventanias ao pé de escadarias.
Aquele recorte na janela, beleza fotografada em um olhar sonolento, soprada com a fumaça de outro cigarro, com o fundo de outro copo. Era o relógio grudado torto na parede. Aquele descompasso de minutos e segundos e anos que não voltavam e nem correriam a vontade de quem os vivencia.
Não desenhou. Das linhas que viu só pode ficar com as cores e nem tocou, porque já era tarde, já era madrugada, já era silêncio. Nem tocou, porque do violão só tirava o mi. Nem dó saia dali.
Desce da janela. Calça os sapatos. Abre a porta que já abriu antes. Cruza a cozinha que já cruzou antes. Pisa nas folhas secas da árvore que caduca com o inverno que se aproxima irremediável em um futuro onde essa cena já não vai se repetir. Ele deixa ela ir. Deixa porque precisa, mas sem ter a certeza de que quer. E ela vai, decidida.
Pisa na calçada e fraqueja. Ele sobe as escadas e espera.
Não voltam mais. A janela é fechada e a cena tenta se desfazer, assim como as folhas serão varridas e como a árvore em breve será só galhos. Não que eles não se desejem e não que o cigarro apagado tenha sido o último do maço, mas já é tempo de enfrentarem a si mesmos sozinhos.
Vão lá, ouvir suas músicas... ninguém pode sair de mero espectador agora.
Tão triste e sozinho, deitado fundo no sofá, fugindo dos fantasmas da cama. Se sentia solitário de um jeito novo, solitário de um jeito que só o último de uma espécie saberia como é. Era o único de si. E não conseguia nem se suportar. Queria alguém pra dizer que ama, mas não encontrava no meio do ego que espalhou pela casa. Tornara-se um bicho indomável, ouriçado, cruel consigo mesmo, apaixonado pela sua auto-piedade, esgotado nas batalhas contra os demônios invencíveis. Não conseguia ver verdade em "tudo está cheio de amor". Estava jogando xadrez e não podia vencer pois já não tinha rivais. Via o sol nascer mais uma vez, na insônia de esperar por algo que não queria que chegasse. Precisava crescer. Se livrar... mas que medo que tinha disso. Não queria levantar-se de novo, não queria repetir e repetir e trocar palavras e continuar falando das mesmas coisas.
Pensava na vida que ainda tinha em frente e já se arrependia por ter nascido. Pensava no dia que ia raiar e se arrependia por não ter dormido, pensava na noite que viria depois e se arrependia por ter visto mais um sol se por.
E sei que não vai durar...
Por ainda ter tempo
Dos cigarros no cinzeiro
Aquele recorte na janela, beleza fotografada em um olhar sonolento, soprada com a fumaça de outro cigarro, com o fundo de outro copo. Era o relógio grudado torto na parede. Aquele descompasso de minutos e segundos e anos que não voltavam e nem correriam a vontade de quem os vivencia.
Não desenhou. Das linhas que viu só pode ficar com as cores e nem tocou, porque já era tarde, já era madrugada, já era silêncio. Nem tocou, porque do violão só tirava o mi. Nem dó saia dali.
Desce da janela. Calça os sapatos. Abre a porta que já abriu antes. Cruza a cozinha que já cruzou antes. Pisa nas folhas secas da árvore que caduca com o inverno que se aproxima irremediável em um futuro onde essa cena já não vai se repetir. Ele deixa ela ir. Deixa porque precisa, mas sem ter a certeza de que quer. E ela vai, decidida.
Pisa na calçada e fraqueja. Ele sobe as escadas e espera.
Não voltam mais. A janela é fechada e a cena tenta se desfazer, assim como as folhas serão varridas e como a árvore em breve será só galhos. Não que eles não se desejem e não que o cigarro apagado tenha sido o último do maço, mas já é tempo de enfrentarem a si mesmos sozinhos.
Vão lá, ouvir suas músicas... ninguém pode sair de mero espectador agora.
Vermelho
Pensava na vida que ainda tinha em frente e já se arrependia por ter nascido. Pensava no dia que ia raiar e se arrependia por não ter dormido, pensava na noite que viria depois e se arrependia por ter visto mais um sol se por.