Só fica a vontade de encostar a cabeça e dormir. Descansar. Tentar se livrar dos demônios que não cessam os tormentos. Sentir seu vazio ser ocupado pela névoa negra de coisas que você não entende. Que você não pode ou não quer entender. Não. Não só isso. O vazio de se sentir único, de realmente se sentir o único. De ser especial. De ser único e estar sozinho. E o problema não é não ser entendido. É não querer ser entendido. Preferir a confusão, a anulação e o sumiço.
Não posso me preocupar com a verdade das pessoas. Nunca quis interferir nos seus credos, crenças e histórias. Deixo-as com seus próprios sentimentos enquanto de algum modo alienigena tento ou corrigir os meus próprios, ou simplesmente não senti-los. É mais fácil assim, ou pelo menos mais confortável. Não existe contradição no silêncio. Nem resposta. Nem nada. Deixe que seja vazio, deixe que o vazio ocupe-se de nada e que o nada seja tudo.
Mais uma vez é sobre não ser.
Era um mundo de direito a palavra. Todos eram cegos mas ninguém era surdo. Mundo barulhento, sussurrado alto pra você não perder. Nenhuma palavra, nenhuma poesia. Era assim uma balburdia, de corvos e pássaros e gente com algo a dizer. Gente com coisa pra ensinar. Latidos altos, miados melados e promessas de um deus melhor. Buzina, fumaça. Cigarros e dez quilos em duas semanas. Era um mundinho sem direito nenhum ao silêncio. Habitado por monstros com cabeças de sons, com guitarras e baterias, com spam e rede social. Não era pra ser seu, nem meu, nem de ninguém em especial. Planeta árido e atômico, ácido e gastrico. Bistrô. Era o mundo deles que falavam e de você que ouvia, sem opção, com atenção. Sem brisa, só os fatos reais. Moderno e desenvolvido, steampunk fumaceando na avenida. Loucura no café-da-manhã, uma bala na janta.
Outro cigarro. Filtro vermelho. Desses que machuca a garganta e pesa nos pulmões. Pesa nas veias. Faz sua pressão cair, te afunda no sofá, bagunça seus pensamentos. Te faz dormir. Bate as cinzas no metal que se aquece, olha a brasa. Outro trago.
Conferindo a música na vitrola lembra-se dos números que deixou de discar. É, não discou mesmo. Não quis. Nunca gostou de telefones... lembra dos números que quis ganhar, dos que precisava ganhar, dos que tinha e daqueles que coloriam folhas e mais folhas. Números.
Pensava no que fazia e faria por eles. No que não contou. Sofria em silêncio naqueles tragos, tentando deixar a música tocar mais alto. Preso nessas redes perigosas de fios de nilon que cortavam mas não prendiam, debatia-se de infelicidade, não podia se sentir completo. Díficil se sentir completo em tempos tão duros. Díficil sentir. Amortecia-se.
Amortecido parava a vitrola. Encostava-se no travesseiro, enxugando lágrimas que poderiam ser de tristeza, mas desciam com o sono de quem tenta não se preocupar. Mas preocupava-se. Ali no travesseiro voltava a fita, guardava as dores que podia enquanto socava o objeto que deveria se adaptar a uma cabeça que só queria no mundo poder explodir. Em penas, em miolos, em ideias. Em números.
Vê-los espalhados, pelo chão e os lençois. Vermelhos, pretos, azuis. Cor de nada. Nem vê-los mais. Quando?
Desculpas se eu não voltar. Não suportei. Perdoa minha ida como perdoou minha chegada uma vez. Parti sóbrio, parti contente. Parti seguro daquilo que estava fazendo ainda que as lágrimas enchessem meus olhos e cruzassem minha face. Elas acabavam num sorriso. Chorava porque conheço a saudade e sei que um dia ela me encontrará. Mas não você. Você nunca mais. Vou ganhar o mundo sem as suas asas, andar pelas ruas descalço de seus cuidados desastrados. Vou pisar em asfalto quente, ganhar bolhas. Vou acabar mais magro e mais seco. Vou acabar com um fim só meu. E o escreverei por conta própria, com minha letra, com meu punho machucado, com meu sangue derramado. Não parti por um desejo sado de sofrer, mas por um desejo claro de viver, viver uma vida que não teria ao seu lado. Vida que não tive. Então, se respiro agora e me entrego a outros caminhos é porque sei que é o melhor que posso fazer, sei que é o melhor de mim. Se cuida. Eu vou me cuidar.
Se penso, já não quero. Quero é sentir. E sentir demais, já não quero. Quero mais é não querer. Poder. Poder sem querer. Querer não é poder. Quero mais é esquecer. Juntar as pontas dessa vida e galopar. Ah, como me canso. Descaso, acaso irrelevante. Quero uma brisa, uma garoa. Um chuva torrencial. De suco gástrico. Ácido.
Já não sentia os sentidos. Sentou-se e chorou. Ali, na soleira da porta, desolado e entregue a ondas soluçantes, afogado nas lágrimas que não cansariam de cair e molhar o chão e deixar marcas em sua camiseta e rasgá-lo por dentro, sangrá-lo das raivas engolidas. Alienou-se num céu turvo de olhos cerrados e vermelhos. Visão confusa, difusa, lacerante de um cenário seco, natural, mórbido e cotidiano. Viu-se mais uma vez ali, na casa que costumava amar, na vida que costumava ter, nos costumes que costumava vestir e chorou.
Chorou pois era tudo que tinha. Não tinha secado, mas tinha morrido. Morreu dia-a-dia, morreu em cada garfada. Deixou a vida esvair em cada passo em direção a porta. Morreu nos cigarros que apagou, nos copos que terminou, morreu em cada contrato fechado, em cada assinatura refeita. Chorava agora, ali na soleira da porta, o próprio enterro. Era o caixão, era o defunto e era a morte. Era o verme que putrificava sua própria carne. Não havia perfume que afastasse o odor. Estava morto e sabia.
Chorou anos seguidos. Da soleira da porta fez túmulo. Ao seu redor, das lágrimas brotava vida, vida de uma natureza sanguessuga, usurpadora das lágrimas do morto. O pé fez-se raiz. Enterrou-se, fundo. Casa, morto, alma, vazio. Fez-se corpo presente e pesado na entrada da casa que amou. Fez-se forte e ramagem da soleira da porta que já não abriria nunca mais. Prendeu-se forte a paredes que exibiam mais histórias do que aquela que fingiu viver. Prendeu-se ali, exilado da vida que renegou.
Desce
do carro. Outra carona, outro desconhecido, outras horas em silêncio se
contorcendo no banco em uma estrada inacabável. Sente o frio já previsto e se
culpa por ter esquecido os casacos. Em cima da cama. Em outra cidade.
Junta
as malas, agradece. Paga. Caminha em direção ao ponto. Ponto de ônibus. De
chegada, de partida. Encosta na mureta e espera. Liga o telefone, disca. Cobra
“Cadê você? Já estou aqui”. Em resposta “10 minutos”. Já se passaram vinte.
Pensa de novo nas blusas que deixou em cima da cama. Pragueja. 30 minutos.
A
nova carona chega. Entra no carro, cumprimenta, silencia. Está a 250km de lugar
nenhum. Não entende pra onde volta ou pra onde vai. Se arrepende por chegar.
“Estou bem”. Tudo certo? “Tudo”. Encurta o assunto, fecha o vidro. Busca o
cigarro que não pode fumar. Pragueja, mentalmente.
Escuta
as novidades. Processa o que escuta, soma ao que leu e se arrepende por vir.
Não se interessa por aquilo. Deixa que as palavras se afundem no silêncio. Não
se preocupa. As lágrimas esquentam os olhos. Não caem. Seriam só outras
lágrimas. Já secaram.
A
paisagem corre pelo vidro do carro. “Tá com fome? Se tiver precisamos pedir
algo”. Só o velho descaso, desinteresse? Não sabe, diz que não tem fome,
silencia de novo. “Tá bravo?”. Não. Arrependido, apegado. “Só cansado, não
dormi direito”.
Chegam.
Desce, abre, fecha. Liga a TV. A novela fora de horário preenche os vazios que
conversa nenhuma tenta cobrir. Serve-se de um iogurte. Insosso. Deita e espera.
Logo o final da semana finda finalmente. Logo chega onde não quer. Logo, pega
outra carona.
Não posso me preocupar com a verdade das pessoas. Nunca quis interferir nos seus credos, crenças e histórias. Deixo-as com seus próprios sentimentos enquanto de algum modo alienigena tento ou corrigir os meus próprios, ou simplesmente não senti-los. É mais fácil assim, ou pelo menos mais confortável. Não existe contradição no silêncio. Nem resposta. Nem nada. Deixe que seja vazio, deixe que o vazio ocupe-se de nada e que o nada seja tudo.
Mais uma vez é sobre não ser.
Conferindo a música na vitrola lembra-se dos números que deixou de discar. É, não discou mesmo. Não quis. Nunca gostou de telefones... lembra dos números que quis ganhar, dos que precisava ganhar, dos que tinha e daqueles que coloriam folhas e mais folhas. Números.
Pensava no que fazia e faria por eles. No que não contou. Sofria em silêncio naqueles tragos, tentando deixar a música tocar mais alto. Preso nessas redes perigosas de fios de nilon que cortavam mas não prendiam, debatia-se de infelicidade, não podia se sentir completo. Díficil se sentir completo em tempos tão duros. Díficil sentir. Amortecia-se.
Amortecido parava a vitrola. Encostava-se no travesseiro, enxugando lágrimas que poderiam ser de tristeza, mas desciam com o sono de quem tenta não se preocupar. Mas preocupava-se. Ali no travesseiro voltava a fita, guardava as dores que podia enquanto socava o objeto que deveria se adaptar a uma cabeça que só queria no mundo poder explodir. Em penas, em miolos, em ideias. Em números.
Vê-los espalhados, pelo chão e os lençois. Vermelhos, pretos, azuis. Cor de nada. Nem vê-los mais. Quando?
Do pó ao pó
Chorou pois era tudo que tinha. Não tinha secado, mas tinha morrido. Morreu dia-a-dia, morreu em cada garfada. Deixou a vida esvair em cada passo em direção a porta. Morreu nos cigarros que apagou, nos copos que terminou, morreu em cada contrato fechado, em cada assinatura refeita. Chorava agora, ali na soleira da porta, o próprio enterro. Era o caixão, era o defunto e era a morte. Era o verme que putrificava sua própria carne. Não havia perfume que afastasse o odor. Estava morto e sabia.
Chorou anos seguidos. Da soleira da porta fez túmulo. Ao seu redor, das lágrimas brotava vida, vida de uma natureza sanguessuga, usurpadora das lágrimas do morto. O pé fez-se raiz. Enterrou-se, fundo. Casa, morto, alma, vazio. Fez-se corpo presente e pesado na entrada da casa que amou. Fez-se forte e ramagem da soleira da porta que já não abriria nunca mais. Prendeu-se forte a paredes que exibiam mais histórias do que aquela que fingiu viver. Prendeu-se ali, exilado da vida que renegou.
Parada
Junta as malas, agradece. Paga. Caminha em direção ao ponto. Ponto de ônibus. De chegada, de partida. Encosta na mureta e espera. Liga o telefone, disca. Cobra “Cadê você? Já estou aqui”. Em resposta “10 minutos”. Já se passaram vinte. Pensa de novo nas blusas que deixou em cima da cama. Pragueja. 30 minutos.
A nova carona chega. Entra no carro, cumprimenta, silencia. Está a 250km de lugar nenhum. Não entende pra onde volta ou pra onde vai. Se arrepende por chegar. “Estou bem”. Tudo certo? “Tudo”. Encurta o assunto, fecha o vidro. Busca o cigarro que não pode fumar. Pragueja, mentalmente.
Escuta as novidades. Processa o que escuta, soma ao que leu e se arrepende por vir. Não se interessa por aquilo. Deixa que as palavras se afundem no silêncio. Não se preocupa. As lágrimas esquentam os olhos. Não caem. Seriam só outras lágrimas. Já secaram.
A paisagem corre pelo vidro do carro. “Tá com fome? Se tiver precisamos pedir algo”. Só o velho descaso, desinteresse? Não sabe, diz que não tem fome, silencia de novo. “Tá bravo?”. Não. Arrependido, apegado. “Só cansado, não dormi direito”.
Chegam. Desce, abre, fecha. Liga a TV. A novela fora de horário preenche os vazios que conversa nenhuma tenta cobrir. Serve-se de um iogurte. Insosso. Deita e espera. Logo o final da semana finda finalmente. Logo chega onde não quer. Logo, pega outra carona.