Era um desses dias que eu estava decidido a não falar sobre nós dois. Tinha dito que beberia e esqueceria de mim. Bebi e lembrei de você. O problema é que te amo e isso é realmente uma droga. Droga alucinógena, pesada, que queima minha garganta, destrói meus neurônios. Sou um viciado. E como todo viciado é no ódio que sinto por você que encontro forças pra sustentar tanto amor. Sinto uma tristeza se espalhando por mim, tomando conta dos meus sentidos. Maldita. Queria te cortar fora como um pedaço de unha, queria te amassar como amasso meus poemas de mal gosto, queria te apagar como apago meus rabiscos mal riscados no papel. Maldita de novo.
O alcool correndo
Não sei se é por medo. Se é puro egoísmo. Se é impaciência, auto-sabotagem, menosprezo. Mas sempre deixo que as coisas passem. Coisas, pessoas, minha vida. Escondido atrás de preocupações empáticas, tento encontrar razões reais pra não enfrentar. Razões pra poder fugir. Mas de novo acabo perdendo...
E se pudesse desejaria felicidade. Ia querer que ela se libertasse da presença constante dele no seu coração e seguisse a vida. Não era indiferença da parte dele. Só não se sentia no direito de ter o controle sobre o amor que ela sentia. Ele não queria ser responsável por aquilo. E não era por falta de amor, porque deus sabia quanto amor ele guardava dentro dele. Era só inabilidade. Queria que ela fosse porque não podia dar a felicidade que esperava que ela tivesse. Mas como desejaria felicidade pra ela, como esperaria que ela encontrasse isso em outros braços se seria o mesmo que se banhar em uma poça de veneno e amargurar o doce sabor da perca? Como ele diria "então vá, baby, encontre os segredos do mundo, vá sem mim e nos braços de outro encontre aquilo que não quis te dar"? Como ele diria isso, se ela era o ar e a água, se naquela menina ele encontrava razões para se desafiar a sair da cama nas manhãs nubladas, fazer o café e dizer bom-dia. Era nela que pensava quando construia castelos no ar e elevava casas na areia. Quando mobiliava quartos de paraná e rascunhava blocos vazios tentando encaixar existências tão afim. Se quando ele trocava o tênis ao sair era só porque ela não gostava do seu tênis velho e confortável. Se ele largara os cigarros porque ela ficava com o nariz vermelho e a voz enroscada. Se ele deixara de lado seus filmes bobos, porque com ela entendia aqueles filmes sem sentido. Não mudou por ela, só se adaptou. E como deixaria a adaptação de lado pra mandá-la embora. Não queria o amor dela, mas não sabia como viver sem ele. Não queria se responsabilizar, mas há muito já a tinha cativada, acuada. Tinha se cativado e por ser frio demais pra aceitar desejava que ela o deixasse com seus motivos pra não querer viver. Ela o enchia de uma força que ele gostava de ter perdido.
Tenho a mente cheia de merdas
Estava sentado no meu sofá, pensando. Pensei nas coisas que aprendi e nas que eu deixei de lado por acidente ou de propósito. Vi o tempo passar, mais rápido do que eu estava acostumado. Vi tudo correr, em velocidades que não pude acompanhar. O mundo quis rodar, tudo enquanto não saí do sofá.
É uma insegurança confusa. Cansar de falar de você e não ter mais nada pra falar. Recusar-se a contar suas histórias e ver que não tem nenhuma pra ouvir. Olhar pro mundo humildemente e sentir que não era bem aquilo que você pensava. Esse turbilhão de pensamentos incoerentes te levaram a lugar nenhum e agora você se pergunta se pode continuar. Se pergunta se consegue seguir em frente...