Tão triste e sozinho, deitado fundo no sofá, fugindo dos fantasmas da cama. Se sentia solitário de um jeito novo, solitário de um jeito que só o último de uma espécie saberia como é. Era o único de si. E não conseguia nem se suportar. Queria alguém pra dizer que ama, mas não encontrava no meio do ego que espalhou pela casa. Tornara-se um bicho indomável, ouriçado, cruel consigo mesmo, apaixonado pela sua auto-piedade, esgotado nas batalhas contra os demônios invencíveis. Não conseguia ver verdade em "tudo está cheio de amor". Estava jogando xadrez e não podia vencer pois já não tinha rivais. Via o sol nascer mais uma vez, na insônia de esperar por algo que não queria que chegasse. Precisava crescer. Se livrar... mas que medo que tinha disso. Não queria levantar-se de novo, não queria repetir e repetir e trocar palavras e continuar falando das mesmas coisas.
Pensava na vida que ainda tinha em frente e já se arrependia por ter nascido. Pensava no dia que ia raiar e se arrependia por não ter dormido, pensava na noite que viria depois e se arrependia por ter visto mais um sol se por.
Andava na rua de novo. Com seu tênis branco e encardido, com sua bermuda suja, camiseta arrumada, cabelo desgrenhado, barba por fazer. Mochila vazia presa nas costas. Andava apressado, com os passos de quem quer sair correndo e não quer parar mais, passos de quem se imaginava Forrest.
Olha amor. Mira esses meus olhos. Enxerga nessas rugas meu cansaço. Olha bem amor, por favor, olha agora. Enxerga em mim de novo seu novo amante, enxerga nesse velho corpo seu antigo amor. Esquece as marcas do tempo e do desprezo, esquece as cicatrizes dessa vida arrastada e me ama de novo. Olha pra mim amor.
Acho que sempre erro nas minhas expressões. Não consigo me expressar como queria, faço parecer errado, faço parecer grosso. Se tenho alguma culpa, é nisso. Mas eu tentei me explicar, eu tentei mostrar o meu lado, tentei deixar as coisas pelo menos um pouco mais claras. Só que vocês teimam em não ouvir, vocês já me enquadraram num gabarito que não me encaixo, num padrão que não é real. Eu não sou desse jeito que vocês enxergam, não sou melhor do que isso e muito menos sou pior do que isso. Mas não sou isso.
Porque não faz sentido a gente fingir agora que tá tudo bem amor. Esquecer as mágoas dos meses que fugiram e sorrir bobo desejando felicidade. Não faz sentido.
Esse não foi um ano fácil. Deus sabe que não. Começou e terminou com incertezas. O menino que entrou o ano pensando na vida, passou o ano confrontando o homem que já deu os primeiros passos num caminho sem volta. Esse menino aprendeu a se virar, a fazer arroz, temperar carne. Aprendeu a perguntar onde fica, aprendeu a encontrar aquilo que precisava. Tentou aprender a lidar com o dinheiro, mas esse ainda parece um bicho complicado de se dominar.
Vermelho
Pensava na vida que ainda tinha em frente e já se arrependia por ter nascido. Pensava no dia que ia raiar e se arrependia por não ter dormido, pensava na noite que viria depois e se arrependia por ter visto mais um sol se por.