Mentaótico

Ótica mental cheia de hortelã!

E ela era assim, a menina que ele tinha desenhado em folhas de caderno, pautadas em linhas ciano. Tinha as curvas  dos recortes topográficos dos morros baseados em peitos e bundas que ele cansou de riscar. Os cabelos voados escuros como o nanquim que teimava em manchar as folhas de baixo. Menina que ele gostava de florear nos sonhos de jardins proibidos, nos pesadelos de luxuriosos infernos. Exatamente a menina que surgia, sempre que ele podia se divertir sozinho, com obscenidades de segredo, segredos desnecessários. 


Era a menina virtual, que ouviria Billie Holliday com ele achando sexy e não parada. Que o mostraria um mundo art-nouveau, um mundo barroco, de curvas e luzes dramáticas, de cenas inesperadas com pontos de vista forçados. Trancados em casa as paredes seriam góticas e a vontade de tocar o céu seria exasperada nos gritos que seriam arrancados pelo sexo que ambos repitiriam num ritmo inegável. 

E era ela ali, tocável, palpável, como uma viga clássica fincada no alto da encosta, que se arrastaria por milhares de anos. Cena eterna de filme mudo que queima na carne a imagem que um dia você talvez queira esquecer. Ela com os cabelos pretos, o corpo geográfico e o sorriso lunático de madrugadas viradas a imaginar. Imaginar. 

Vai, e conversa com ela.

A brasa acesa no escuro recortado pelo quadrado da janela. Era um samba todo, queimando em fumaça branca contrastada no vermelho, forte, poderoso, que radiava de seus cabelos, de sua boca, daquele falso ódio delirando num sorriso irônico. Acordes, notas. Sopro de palavras mudas, silenciadas numa ignorância mútua. Era uma ópera toda, tocada com ênfase, cansada até o último momento, dedilhada num enlace de amores alcoolizados, paixões gravadas em ventanias ao pé de escadarias.

Aquele recorte na janela, beleza fotografada em um olhar sonolento, soprada com a fumaça de outro cigarro, com o fundo de outro copo. Era o relógio grudado torto na parede. Aquele descompasso de minutos e segundos e anos que não voltavam e nem correriam a vontade de quem os vivencia.

Não desenhou. Das linhas que viu só pode ficar com as cores e nem tocou, porque já era tarde, já era madrugada, já era silêncio. Nem tocou, porque do violão só tirava o mi. Nem dó saia dali.

Desce da janela. Calça os sapatos. Abre a porta que já abriu antes. Cruza a cozinha que já cruzou antes. Pisa nas folhas secas da árvore que caduca com o inverno que se aproxima irremediável em um futuro onde essa cena já não vai se repetir. Ele deixa ela ir. Deixa porque precisa, mas sem ter a certeza de que quer. E ela vai, decidida.

Pisa na calçada e fraqueja. Ele sobe as escadas e espera.

Não voltam mais. A janela é fechada e a cena tenta se desfazer, assim como as folhas serão varridas e como a árvore em breve será só galhos. Não que eles não se desejem e não que o cigarro apagado tenha sido o último do maço, mas já é tempo de enfrentarem a si mesmos sozinhos.

Vão lá, ouvir suas músicas... ninguém pode sair de mero espectador agora.


O cheiro da pólvora não foi capaz de apagar aquele sorriso. O denso odor da carne queimada pelo tiro a queima roupa não foi sólido o bastante pra desfazer o sorriso que brotou do lábio carmim. O sangue escarlate, que estragava o papel de parede, estragava o carpete e deixava marcas em seus sapatos parecia conversar com a cor daqueles lábios que sorriam a meia-luz. No quarto, agora inundado pelo sangue que a morte recolhia em frascos decorados, ela sentou-se na cama, escorregando nos lençóis de cetim que ainda recendiam ao amor das loucas noites de verão. Olhou para o corpo no chão, estirado. Deixou que uma lágrima brotasse de seu olho esquerdo e tocasse a carne dos lábios que não eram os únicos a beijar a boca do morto. Deixou que a gota pingasse nas coxas que já não podiam mais segurar seus ventres apertados, enquanto sem fôlego ela urrava os berros do bicho traído, da mulher trocada, da esposa atenciosa, da amante dispensada. E deixou que sua boca, que era lábios e dentes e fogo e amor tornasse ao sorriso limitado pelo vermelho, que era sangue e batom e amor e fogo. Sorriu vingada. Prendeu a arma de volta a coxa, levantou-se, arrumou os seios no sutiã de renda, olhou-se no espelho, limpou a lágrima.

“Viúvo é quem morre” foi o que pensou ao fechar a porta do quarto e ganhar as ruas sorrindo para a lua que recitava poesias em seu ouvido.

Tão triste e sozinho, deitado fundo no sofá, fugindo dos fantasmas da cama. Se sentia solitário de um jeito novo, solitário de um jeito que só o último de uma espécie saberia como é. Era o único de si. E não conseguia nem se suportar. Queria alguém pra dizer que ama, mas não encontrava no meio do ego que espalhou pela casa. Tornara-se um bicho indomável, ouriçado, cruel consigo mesmo, apaixonado pela sua auto-piedade, esgotado nas batalhas contra os demônios invencíveis. Não conseguia ver verdade em "tudo está cheio de amor". Estava jogando xadrez e não podia vencer pois já não tinha rivais. Via o sol nascer mais uma vez, na insônia de esperar por algo que não queria que chegasse. Precisava crescer. Se livrar... mas que medo que tinha disso. Não queria levantar-se de novo, não queria repetir e repetir e trocar palavras e continuar falando das mesmas coisas.

Pensava na vida que ainda tinha em frente e já se arrependia por ter nascido. Pensava no dia que ia raiar e se arrependia por não ter dormido, pensava na noite que viria depois e se arrependia por ter visto mais um sol se por.


Andava na rua de novo. Com seu tênis branco e encardido, com sua bermuda suja, camiseta arrumada, cabelo desgrenhado, barba por fazer. Mochila vazia presa nas costas. Andava apressado, com os passos de quem quer sair correndo e não quer parar mais, passos de quem se imaginava Forrest.


Passos rápidos, agéis. Desviava das árvores, embaixo dos pingos de chuva. Pulava as poças, atolava o pé no barro. Imaginava situações que o livrassem daquela vida cavocada na penumbra. Prestava atenção nos postes que apagavam e contava o tempo até que se iluminassem. Esperava que o sequestrassem, esperava ser roubado, esperava que lhe oferecessem sexo. Acelerava o passo.

Sabia que andava mais rápido que o necessário. Sabia que adiantava o momento de chegar em qualquer lugar, ainda que nunca quisesse chegar em lugar nenhum. Não corria, não gostava de correr, mas acelerava o passo, acelerava cada movimento muscular que o levasse um metro mais a frente, um metro além de qualquer demônio. Fugia.

Sentia-se livre ali na rua. Sentia-se dono de uma vida que não podia perseguir, por mais que ainda caminhasse. Essa vida que deteriorava em seus sonhos, vida que via pior, que imaginava diferente, que criava irresponsavelmente.

Olhava para os carros e se via atropelado, tripas coladas no asfalto. Fêmur fraturado, crânio despedaçado. Voltava-se para a calçada. Não queria aquilo e ria de si mesmo. Prestava atenção em seus cadarços e desviava das riscas do chão invocando antigos mitos. Revia mentalmente sua agenda, amaldiçoava mais uma vez, amigos, família, seus cachorros.

Respirava e lançava-se em outro passo no escuro. Só sabia seguir.

Olha amor. Mira esses meus olhos. Enxerga nessas rugas meu cansaço. Olha bem amor, por favor, olha agora. Enxerga em mim de novo seu novo amante, enxerga nesse velho corpo seu antigo amor. Esquece as marcas do tempo e do desprezo, esquece as cicatrizes dessa vida arrastada e me ama de novo. Olha pra mim amor.


Junta coragem e levanta esse rosto, abre esse seu olho e me vê mais uma vez. Parado, na sua frente, implorando. Para de só me ouvir falar. Amor, preciso disso. Me olha. Olha nos meus olhos e me aceita mais uma vez... não mata-me devagar assim, não me ignora como ignora os cachorros famintos que te seguem cheirosa. Não suporto.

Não te peço perdão pois não errei. Não derramo lágrimas pois não tenho tristeza enterrada no peito. Não tenho medo porque já não tenho mais nada a perder. Então me olha amor, me olha e sai dessa pose desposada e travada e desinteressada. Olha e tenta me aquecer.

Sou um velho. E você é uma velha. E nossas vidas são velhas. E nosso amor... doente, decadente. Meu amor. Mas ainda somos nós. Amor. Pode ficar com seus sentimentos acabados na vala suja, pode ficar com suas ideias que me deitaram na lama. Mas agora, só agora, agora que sopro a angústia de uma vida bem vivida, olha pra mim, olha pra mim. E se despede...

Já não sei se acordarei.

Acho que sempre erro nas minhas expressões. Não consigo me expressar como queria, faço parecer errado, faço parecer grosso. Se tenho alguma culpa, é nisso. Mas eu tentei me explicar, eu tentei mostrar o meu lado, tentei deixar as coisas pelo menos um pouco mais claras. Só que vocês teimam em não ouvir, vocês já me enquadraram num gabarito que não me encaixo, num padrão que não é real. Eu não sou desse jeito que vocês enxergam, não sou melhor do que isso e muito menos sou pior do que isso. Mas não sou isso.


É muito fácil tirar as próprias conclusões e enterrá-las fundo. Fechar os ouvidos e não querer escutar. O difícil é entender que "porque sim" não funciona mais. Porque sim não responde nada. Difícil é aceitar que existem perguntas agora. É difícil não olhar só pro próprio rabo e ver só seus próprios problemas. Eu não sei mais o que fazer... a sensação de esgotamento não passa, não sara. Queria poder pelo menos me sentir culpado, me sentir responsável por isso, queria entender os motivos, queria ter explicações.

Mas nem conversar a gente consegue... cada tentativa é uma tortura, cada palavra é um buraco novo, é mais um poço aberto, mais um iceberg a ser vencido, mais um penhasco a cair. E já não consigo mais enfrentar essas coisas. Só sinto vontade de me afastar. Antes sentir saudades do que sentir de novo esse amargo do ódio. Vou quebrar meus dentes se prender meu maxilar de novo, vou rasgar minha mão se segurar minha raiva mais uma vez. E não quero isso...

Eu conseguia lembrar de alguma coisa nossa e hoje me esvaziei de um jeito tão medonho. Apaguei as luzes e deixei um negro tão angustiante, tão monstruoso.

Queria desistir de vocês. Juntar minhas roupas, ir embora. De novo, pra sempre. Só ter de vocês os números no banco e isso enquanto não conseguisse desprecisar também. Manter as relações formais, essas que a gente se dá bem por duas horas e então volta cada um pro seu lugar... aí fingiriamos que é tudo como deveria ser, inventariamos uma familia pra cada jantar, pra cada churrasco e seria tudo como queriamos que fosse.

Mas não consigo. Então deixa me deixa com meu copo e com minhas ilusões. Lá no fundo dele eu me sinto melhor...

E ela era assim, a menina que ele tinha desenhado em folhas de caderno, pautadas em linhas ciano. Tinha as curvas  dos recortes topográficos dos morros baseados em peitos e bundas que ele cansou de riscar. Os cabelos voados escuros como o nanquim que teimava em manchar as folhas de baixo. Menina que ele gostava de florear nos sonhos de jardins proibidos, nos pesadelos de luxuriosos infernos. Exatamente a menina que surgia, sempre que ele podia se divertir sozinho, com obscenidades de segredo, segredos desnecessários. 

Era a menina virtual, que ouviria Billie Holliday com ele achando sexy e não parada. Que o mostraria um mundo art-nouveau, um mundo barroco, de curvas e luzes dramáticas, de cenas inesperadas com pontos de vista forçados. Trancados em casa as paredes seriam góticas e a vontade de tocar o céu seria exasperada nos gritos que seriam arrancados pelo sexo que ambos repitiriam num ritmo inegável. 

E era ela ali, tocável, palpável, como uma viga clássica fincada no alto da encosta, que se arrastaria por milhares de anos. Cena eterna de filme mudo que queima na carne a imagem que um dia você talvez queira esquecer. Ela com os cabelos pretos, o corpo geográfico e o sorriso lunático de madrugadas viradas a imaginar. Imaginar. 

Vai, e conversa com ela.

Dos cigarros no cinzeiro

A brasa acesa no escuro recortado pelo quadrado da janela. Era um samba todo, queimando em fumaça branca contrastada no vermelho, forte, poderoso, que radiava de seus cabelos, de sua boca, daquele falso ódio delirando num sorriso irônico. Acordes, notas. Sopro de palavras mudas, silenciadas numa ignorância mútua. Era uma ópera toda, tocada com ênfase, cansada até o último momento, dedilhada num enlace de amores alcoolizados, paixões gravadas em ventanias ao pé de escadarias.

Aquele recorte na janela, beleza fotografada em um olhar sonolento, soprada com a fumaça de outro cigarro, com o fundo de outro copo. Era o relógio grudado torto na parede. Aquele descompasso de minutos e segundos e anos que não voltavam e nem correriam a vontade de quem os vivencia.

Não desenhou. Das linhas que viu só pode ficar com as cores e nem tocou, porque já era tarde, já era madrugada, já era silêncio. Nem tocou, porque do violão só tirava o mi. Nem dó saia dali.

Desce da janela. Calça os sapatos. Abre a porta que já abriu antes. Cruza a cozinha que já cruzou antes. Pisa nas folhas secas da árvore que caduca com o inverno que se aproxima irremediável em um futuro onde essa cena já não vai se repetir. Ele deixa ela ir. Deixa porque precisa, mas sem ter a certeza de que quer. E ela vai, decidida.

Pisa na calçada e fraqueja. Ele sobe as escadas e espera.

Não voltam mais. A janela é fechada e a cena tenta se desfazer, assim como as folhas serão varridas e como a árvore em breve será só galhos. Não que eles não se desejem e não que o cigarro apagado tenha sido o último do maço, mas já é tempo de enfrentarem a si mesmos sozinhos.

Vão lá, ouvir suas músicas... ninguém pode sair de mero espectador agora.

Vermelho


O cheiro da pólvora não foi capaz de apagar aquele sorriso. O denso odor da carne queimada pelo tiro a queima roupa não foi sólido o bastante pra desfazer o sorriso que brotou do lábio carmim. O sangue escarlate, que estragava o papel de parede, estragava o carpete e deixava marcas em seus sapatos parecia conversar com a cor daqueles lábios que sorriam a meia-luz. No quarto, agora inundado pelo sangue que a morte recolhia em frascos decorados, ela sentou-se na cama, escorregando nos lençóis de cetim que ainda recendiam ao amor das loucas noites de verão. Olhou para o corpo no chão, estirado. Deixou que uma lágrima brotasse de seu olho esquerdo e tocasse a carne dos lábios que não eram os únicos a beijar a boca do morto. Deixou que a gota pingasse nas coxas que já não podiam mais segurar seus ventres apertados, enquanto sem fôlego ela urrava os berros do bicho traído, da mulher trocada, da esposa atenciosa, da amante dispensada. E deixou que sua boca, que era lábios e dentes e fogo e amor tornasse ao sorriso limitado pelo vermelho, que era sangue e batom e amor e fogo. Sorriu vingada. Prendeu a arma de volta a coxa, levantou-se, arrumou os seios no sutiã de renda, olhou-se no espelho, limpou a lágrima.

“Viúvo é quem morre” foi o que pensou ao fechar a porta do quarto e ganhar as ruas sorrindo para a lua que recitava poesias em seu ouvido.
Tão triste e sozinho, deitado fundo no sofá, fugindo dos fantasmas da cama. Se sentia solitário de um jeito novo, solitário de um jeito que só o último de uma espécie saberia como é. Era o único de si. E não conseguia nem se suportar. Queria alguém pra dizer que ama, mas não encontrava no meio do ego que espalhou pela casa. Tornara-se um bicho indomável, ouriçado, cruel consigo mesmo, apaixonado pela sua auto-piedade, esgotado nas batalhas contra os demônios invencíveis. Não conseguia ver verdade em "tudo está cheio de amor". Estava jogando xadrez e não podia vencer pois já não tinha rivais. Via o sol nascer mais uma vez, na insônia de esperar por algo que não queria que chegasse. Precisava crescer. Se livrar... mas que medo que tinha disso. Não queria levantar-se de novo, não queria repetir e repetir e trocar palavras e continuar falando das mesmas coisas.

Pensava na vida que ainda tinha em frente e já se arrependia por ter nascido. Pensava no dia que ia raiar e se arrependia por não ter dormido, pensava na noite que viria depois e se arrependia por ter visto mais um sol se por.


Sobre você

Andava na rua de novo. Com seu tênis branco e encardido, com sua bermuda suja, camiseta arrumada, cabelo desgrenhado, barba por fazer. Mochila vazia presa nas costas. Andava apressado, com os passos de quem quer sair correndo e não quer parar mais, passos de quem se imaginava Forrest.

Passos rápidos, agéis. Desviava das árvores, embaixo dos pingos de chuva. Pulava as poças, atolava o pé no barro. Imaginava situações que o livrassem daquela vida cavocada na penumbra. Prestava atenção nos postes que apagavam e contava o tempo até que se iluminassem. Esperava que o sequestrassem, esperava ser roubado, esperava que lhe oferecessem sexo. Acelerava o passo.

Sabia que andava mais rápido que o necessário. Sabia que adiantava o momento de chegar em qualquer lugar, ainda que nunca quisesse chegar em lugar nenhum. Não corria, não gostava de correr, mas acelerava o passo, acelerava cada movimento muscular que o levasse um metro mais a frente, um metro além de qualquer demônio. Fugia.

Sentia-se livre ali na rua. Sentia-se dono de uma vida que não podia perseguir, por mais que ainda caminhasse. Essa vida que deteriorava em seus sonhos, vida que via pior, que imaginava diferente, que criava irresponsavelmente.

Olhava para os carros e se via atropelado, tripas coladas no asfalto. Fêmur fraturado, crânio despedaçado. Voltava-se para a calçada. Não queria aquilo e ria de si mesmo. Prestava atenção em seus cadarços e desviava das riscas do chão invocando antigos mitos. Revia mentalmente sua agenda, amaldiçoava mais uma vez, amigos, família, seus cachorros.

Respirava e lançava-se em outro passo no escuro. Só sabia seguir.

Pra poder ir em paz

Olha amor. Mira esses meus olhos. Enxerga nessas rugas meu cansaço. Olha bem amor, por favor, olha agora. Enxerga em mim de novo seu novo amante, enxerga nesse velho corpo seu antigo amor. Esquece as marcas do tempo e do desprezo, esquece as cicatrizes dessa vida arrastada e me ama de novo. Olha pra mim amor.

Junta coragem e levanta esse rosto, abre esse seu olho e me vê mais uma vez. Parado, na sua frente, implorando. Para de só me ouvir falar. Amor, preciso disso. Me olha. Olha nos meus olhos e me aceita mais uma vez... não mata-me devagar assim, não me ignora como ignora os cachorros famintos que te seguem cheirosa. Não suporto.

Não te peço perdão pois não errei. Não derramo lágrimas pois não tenho tristeza enterrada no peito. Não tenho medo porque já não tenho mais nada a perder. Então me olha amor, me olha e sai dessa pose desposada e travada e desinteressada. Olha e tenta me aquecer.

Sou um velho. E você é uma velha. E nossas vidas são velhas. E nosso amor... doente, decadente. Meu amor. Mas ainda somos nós. Amor. Pode ficar com seus sentimentos acabados na vala suja, pode ficar com suas ideias que me deitaram na lama. Mas agora, só agora, agora que sopro a angústia de uma vida bem vivida, olha pra mim, olha pra mim. E se despede...

Já não sei se acordarei.
Acho que sempre erro nas minhas expressões. Não consigo me expressar como queria, faço parecer errado, faço parecer grosso. Se tenho alguma culpa, é nisso. Mas eu tentei me explicar, eu tentei mostrar o meu lado, tentei deixar as coisas pelo menos um pouco mais claras. Só que vocês teimam em não ouvir, vocês já me enquadraram num gabarito que não me encaixo, num padrão que não é real. Eu não sou desse jeito que vocês enxergam, não sou melhor do que isso e muito menos sou pior do que isso. Mas não sou isso.

É muito fácil tirar as próprias conclusões e enterrá-las fundo. Fechar os ouvidos e não querer escutar. O difícil é entender que "porque sim" não funciona mais. Porque sim não responde nada. Difícil é aceitar que existem perguntas agora. É difícil não olhar só pro próprio rabo e ver só seus próprios problemas. Eu não sei mais o que fazer... a sensação de esgotamento não passa, não sara. Queria poder pelo menos me sentir culpado, me sentir responsável por isso, queria entender os motivos, queria ter explicações.

Mas nem conversar a gente consegue... cada tentativa é uma tortura, cada palavra é um buraco novo, é mais um poço aberto, mais um iceberg a ser vencido, mais um penhasco a cair. E já não consigo mais enfrentar essas coisas. Só sinto vontade de me afastar. Antes sentir saudades do que sentir de novo esse amargo do ódio. Vou quebrar meus dentes se prender meu maxilar de novo, vou rasgar minha mão se segurar minha raiva mais uma vez. E não quero isso...

Eu conseguia lembrar de alguma coisa nossa e hoje me esvaziei de um jeito tão medonho. Apaguei as luzes e deixei um negro tão angustiante, tão monstruoso.

Queria desistir de vocês. Juntar minhas roupas, ir embora. De novo, pra sempre. Só ter de vocês os números no banco e isso enquanto não conseguisse desprecisar também. Manter as relações formais, essas que a gente se dá bem por duas horas e então volta cada um pro seu lugar... aí fingiriamos que é tudo como deveria ser, inventariamos uma familia pra cada jantar, pra cada churrasco e seria tudo como queriamos que fosse.

Mas não consigo. Então deixa me deixa com meu copo e com minhas ilusões. Lá no fundo dele eu me sinto melhor...

Ótica mental cheia de hortelã!

Café forte e sem açúcar!