Mentaótico

Ótica mental cheia de hortelã!

Assistiu seus sonhos serem aprisionados em jaulas frias e invisíveis. Viu o menino ser morto, mais que morto, viu o menino deixar de existir. Caminhando sobre os corpos de uma sociedade em completo desmoronar, viu os castelos se desfazerem em torres e as torres se desfazerem no gosto amargo das cartas marcadas. Da vida conformada. Perdeu-se nas próprias crenças. Quis ser o que não podia, o que disseram que não devia. Esse homem, disforme e sem cor, olhou pro mundo e olhou pra si e não achou semelhanças nem tampouco achou diferenças. Foi sufocado. Foi pisoteado. Foi moldado e reformado. E ainda assim pouco conseguiu ser.


va.zi.o
  1. que não contém nada; que não está com seu conteúdo habitual
  2. desocupado
  3. sem sua carga
  4. sem pessoas ou atividade humana
  5. sem algumas de suas qualidades primordiais
  6. sem força, efeito ou significado

A fumaça é habitual. Preenchendo pulmões nervosos e bocas sedentas por palavras amarguradas. Sai envenenada pelas narinas, ganha o céu. O espaço preenche-se da matéria abstrata e efêmera, espaço cheio de matéria finda. Não há luzes brilhantes e as cores são estáticas, disformes. O mundo é abraçado pela fumaça, é engolido por outro copo cheio. O espaço preenche-se das pessoas e as pessoas preenchem-se com suas besteiras, se lotam de bosta até as tampas. O espaço preenche-se de olhares acusadores, inquisitivos, curiosos e anula-se no embaçado de outro trago. Deixe queimar. Os demônios saem pra brincar, cuspindo fogo e mentira nos corpos dos que passam. O espaço preenche-se de fogo e os queima, vivos, tortos. 

Então eles deixam a distância crescer, cavam seus abismos e deixam que eles se preencham de nada e que o espaço seja eterno. E é assim, o vazio que sobra, o vazio que são. Deixem ser.

Só fica a vontade de encostar a cabeça e dormir. Descansar. Tentar se livrar dos demônios que não cessam os tormentos. Sentir seu vazio ser ocupado pela névoa negra de coisas que você não entende. Que você não pode ou não quer entender. Não. Não só isso. O vazio de se sentir único, de realmente se sentir o único. De ser especial. De ser único e estar sozinho. E o problema não é não ser entendido. É não querer ser entendido. Preferir a confusão, a anulação e o sumiço.

Não posso me preocupar com a verdade das pessoas. Nunca quis interferir nos seus credos, crenças e histórias. Deixo-as com seus próprios sentimentos enquanto de algum modo alienigena tento ou corrigir os meus próprios, ou simplesmente não senti-los. É mais fácil assim, ou pelo menos mais confortável. Não existe contradição no silêncio. Nem resposta. Nem nada. Deixe que seja vazio, deixe que o vazio ocupe-se de nada e que o nada seja tudo.

Mais uma vez é sobre não ser.

Era um mundo de direito a palavra. Todos eram cegos mas ninguém era surdo. Mundo barulhento, sussurrado alto pra você não perder. Nenhuma palavra, nenhuma poesia. Era assim uma balburdia, de corvos e pássaros e gente com algo a dizer. Gente com coisa pra ensinar. Latidos altos, miados melados e promessas de um deus melhor. Buzina, fumaça. Cigarros e dez quilos em duas semanas. Era um mundinho sem direito nenhum ao silêncio. Habitado por monstros com cabeças de sons, com guitarras e baterias, com spam e rede social. Não era pra ser seu, nem meu, nem de ninguém em especial. Planeta árido e atômico, ácido e gastrico. Bistrô. Era o mundo deles que falavam e de você que ouvia, sem opção, com atenção. Sem brisa, só os fatos reais. Moderno e desenvolvido, steampunk fumaceando na avenida. Loucura no café-da-manhã, uma bala na janta.

Outro cigarro. Filtro vermelho. Desses que machuca a garganta e pesa nos pulmões. Pesa nas veias. Faz sua pressão cair, te afunda no sofá, bagunça seus pensamentos. Te faz dormir. Bate as cinzas no metal que se aquece, olha a brasa. Outro trago.

Conferindo a música na vitrola lembra-se dos números que deixou de discar. É, não discou mesmo. Não quis. Nunca gostou de telefones... lembra dos números que quis ganhar, dos que precisava ganhar, dos que tinha e daqueles que coloriam folhas e mais folhas. Números.

Pensava no que fazia e faria por eles. No que não contou. Sofria em silêncio naqueles tragos, tentando deixar a música tocar mais alto. Preso nessas redes perigosas de fios de nilon que cortavam mas não prendiam, debatia-se de infelicidade, não podia se sentir completo. Díficil se sentir completo em tempos tão duros. Díficil sentir. Amortecia-se.

Amortecido parava a vitrola. Encostava-se no travesseiro, enxugando lágrimas que poderiam ser de tristeza, mas desciam com o sono de quem tenta não se preocupar. Mas preocupava-se. Ali no travesseiro voltava a fita, guardava as dores que podia enquanto socava o objeto que deveria se adaptar a uma cabeça que só queria no mundo poder explodir. Em penas, em miolos, em ideias. Em números.

Vê-los espalhados, pelo chão e os lençois. Vermelhos, pretos, azuis. Cor de nada. Nem vê-los mais. Quando?


Desculpas se eu não voltar. Não suportei. Perdoa minha ida como perdoou minha chegada uma vez. Parti sóbrio, parti contente. Parti seguro daquilo que estava fazendo ainda que as lágrimas enchessem meus olhos e cruzassem minha face. Elas acabavam num sorriso. Chorava porque conheço a saudade e sei que um dia ela me encontrará. Mas não você. Você nunca mais. Vou ganhar o mundo sem as suas asas, andar pelas ruas descalço de seus cuidados desastrados. Vou pisar em asfalto quente, ganhar bolhas. Vou acabar mais magro e mais seco. Vou acabar com um fim só meu. E o escreverei por conta própria, com minha letra, com meu punho machucado, com meu sangue derramado. Não parti por um desejo sado de sofrer, mas por um desejo claro de viver, viver uma vida que não teria ao seu lado. Vida que não tive. Então, se respiro agora e me entrego a outros caminhos é porque sei que é o melhor que posso fazer, sei que é o melhor de mim. Se cuida. Eu vou me cuidar.

Se penso, já não quero. Quero é sentir. E sentir demais, já não quero. Quero mais é não querer. Poder. Poder sem querer. Querer não é poder. Quero mais é esquecer. Juntar as pontas dessa vida e galopar. Ah, como me canso. Descaso, acaso irrelevante. Quero uma brisa, uma garoa. Um chuva torrencial. De suco gástrico. Ácido.

Assistiu seus sonhos serem aprisionados em jaulas frias e invisíveis. Viu o menino ser morto, mais que morto, viu o menino deixar de existir. Caminhando sobre os corpos de uma sociedade em completo desmoronar, viu os castelos se desfazerem em torres e as torres se desfazerem no gosto amargo das cartas marcadas. Da vida conformada. Perdeu-se nas próprias crenças. Quis ser o que não podia, o que disseram que não devia. Esse homem, disforme e sem cor, olhou pro mundo e olhou pra si e não achou semelhanças nem tampouco achou diferenças. Foi sufocado. Foi pisoteado. Foi moldado e reformado. E ainda assim pouco conseguiu ser.

va.zi.o
  1. que não contém nada; que não está com seu conteúdo habitual
  2. desocupado
  3. sem sua carga
  4. sem pessoas ou atividade humana
  5. sem algumas de suas qualidades primordiais
  6. sem força, efeito ou significado

A fumaça é habitual. Preenchendo pulmões nervosos e bocas sedentas por palavras amarguradas. Sai envenenada pelas narinas, ganha o céu. O espaço preenche-se da matéria abstrata e efêmera, espaço cheio de matéria finda. Não há luzes brilhantes e as cores são estáticas, disformes. O mundo é abraçado pela fumaça, é engolido por outro copo cheio. O espaço preenche-se das pessoas e as pessoas preenchem-se com suas besteiras, se lotam de bosta até as tampas. O espaço preenche-se de olhares acusadores, inquisitivos, curiosos e anula-se no embaçado de outro trago. Deixe queimar. Os demônios saem pra brincar, cuspindo fogo e mentira nos corpos dos que passam. O espaço preenche-se de fogo e os queima, vivos, tortos. 

Então eles deixam a distância crescer, cavam seus abismos e deixam que eles se preencham de nada e que o espaço seja eterno. E é assim, o vazio que sobra, o vazio que são. Deixem ser.
Só fica a vontade de encostar a cabeça e dormir. Descansar. Tentar se livrar dos demônios que não cessam os tormentos. Sentir seu vazio ser ocupado pela névoa negra de coisas que você não entende. Que você não pode ou não quer entender. Não. Não só isso. O vazio de se sentir único, de realmente se sentir o único. De ser especial. De ser único e estar sozinho. E o problema não é não ser entendido. É não querer ser entendido. Preferir a confusão, a anulação e o sumiço.

Não posso me preocupar com a verdade das pessoas. Nunca quis interferir nos seus credos, crenças e histórias. Deixo-as com seus próprios sentimentos enquanto de algum modo alienigena tento ou corrigir os meus próprios, ou simplesmente não senti-los. É mais fácil assim, ou pelo menos mais confortável. Não existe contradição no silêncio. Nem resposta. Nem nada. Deixe que seja vazio, deixe que o vazio ocupe-se de nada e que o nada seja tudo.

Mais uma vez é sobre não ser.
Era um mundo de direito a palavra. Todos eram cegos mas ninguém era surdo. Mundo barulhento, sussurrado alto pra você não perder. Nenhuma palavra, nenhuma poesia. Era assim uma balburdia, de corvos e pássaros e gente com algo a dizer. Gente com coisa pra ensinar. Latidos altos, miados melados e promessas de um deus melhor. Buzina, fumaça. Cigarros e dez quilos em duas semanas. Era um mundinho sem direito nenhum ao silêncio. Habitado por monstros com cabeças de sons, com guitarras e baterias, com spam e rede social. Não era pra ser seu, nem meu, nem de ninguém em especial. Planeta árido e atômico, ácido e gastrico. Bistrô. Era o mundo deles que falavam e de você que ouvia, sem opção, com atenção. Sem brisa, só os fatos reais. Moderno e desenvolvido, steampunk fumaceando na avenida. Loucura no café-da-manhã, uma bala na janta.
Outro cigarro. Filtro vermelho. Desses que machuca a garganta e pesa nos pulmões. Pesa nas veias. Faz sua pressão cair, te afunda no sofá, bagunça seus pensamentos. Te faz dormir. Bate as cinzas no metal que se aquece, olha a brasa. Outro trago.

Conferindo a música na vitrola lembra-se dos números que deixou de discar. É, não discou mesmo. Não quis. Nunca gostou de telefones... lembra dos números que quis ganhar, dos que precisava ganhar, dos que tinha e daqueles que coloriam folhas e mais folhas. Números.

Pensava no que fazia e faria por eles. No que não contou. Sofria em silêncio naqueles tragos, tentando deixar a música tocar mais alto. Preso nessas redes perigosas de fios de nilon que cortavam mas não prendiam, debatia-se de infelicidade, não podia se sentir completo. Díficil se sentir completo em tempos tão duros. Díficil sentir. Amortecia-se.

Amortecido parava a vitrola. Encostava-se no travesseiro, enxugando lágrimas que poderiam ser de tristeza, mas desciam com o sono de quem tenta não se preocupar. Mas preocupava-se. Ali no travesseiro voltava a fita, guardava as dores que podia enquanto socava o objeto que deveria se adaptar a uma cabeça que só queria no mundo poder explodir. Em penas, em miolos, em ideias. Em números.

Vê-los espalhados, pelo chão e os lençois. Vermelhos, pretos, azuis. Cor de nada. Nem vê-los mais. Quando?


Desculpas se eu não voltar. Não suportei. Perdoa minha ida como perdoou minha chegada uma vez. Parti sóbrio, parti contente. Parti seguro daquilo que estava fazendo ainda que as lágrimas enchessem meus olhos e cruzassem minha face. Elas acabavam num sorriso. Chorava porque conheço a saudade e sei que um dia ela me encontrará. Mas não você. Você nunca mais. Vou ganhar o mundo sem as suas asas, andar pelas ruas descalço de seus cuidados desastrados. Vou pisar em asfalto quente, ganhar bolhas. Vou acabar mais magro e mais seco. Vou acabar com um fim só meu. E o escreverei por conta própria, com minha letra, com meu punho machucado, com meu sangue derramado. Não parti por um desejo sado de sofrer, mas por um desejo claro de viver, viver uma vida que não teria ao seu lado. Vida que não tive. Então, se respiro agora e me entrego a outros caminhos é porque sei que é o melhor que posso fazer, sei que é o melhor de mim. Se cuida. Eu vou me cuidar.
Se penso, já não quero. Quero é sentir. E sentir demais, já não quero. Quero mais é não querer. Poder. Poder sem querer. Querer não é poder. Quero mais é esquecer. Juntar as pontas dessa vida e galopar. Ah, como me canso. Descaso, acaso irrelevante. Quero uma brisa, uma garoa. Um chuva torrencial. De suco gástrico. Ácido.

Ótica mental cheia de hortelã!

Café forte e sem açúcar!